Dona Rosângela foi nossa segunda vizinha. Nos olhava com olhos arregalados de medo, mas falava com a parcimônia de uma professorinha. Era mórbida de tão gorda e cinza de tão escura, de modo que a garotada da minha idade apelidou-a de velha macumbeira, deus que me livre, minha mãe sempre rejeitou esses tipos de trabalhos mas foi grande amiga de Dona Rosângela. Papeavam na calçada de casa por horas. Lembro uma vez, enquanto trocava a água do cachorro, que ouvi Dona Rosângela proseando com sua voz fina de zombeteira que cinco anos tentando parar de fumar pareciam não ajudar na diminuição das cinzas em seu corpo. Assim, com essas palavras. E acrescentou: “às vezes à noite minha vontade é de pegar aqueles pratos e jogá-los nas paredes”. Quando minha mãe, horrorizada, disse que ela estava louca, Dona Rosângela riu, “e ainda comeria o vidro, caco por caco”. Entrei correndo para casa e demorei uns dias pra absorver aquilo. Só apaguei da memória naquela tarde pastel descendo a rua com Lucas. Paramos no caminho entre os cadernos e a cama, e vimos que embaixo do poste velho havia uma garrafa meio cheia de cachaça, uma vela preta apagada e semi derretida e uma cumbuca cheia de farofa. “Morro de medo disso”, “quer um gole da cachaça?”, “não toca nisso, Lucas”. Ele riu com seus olhos azuis, enquanto arrumava a mochila pichada no ombro branco. E então atravessamos a encruzilhada e fomos pra casa e nem estudamos para a prova, só trepamos e trepamos e trepamos. Ou algo assim. Nu pela cozinha, as costas marcadas de espinhas, Lucas se servia da pinga de alambique que papai tomava todo fim de semana. E me provocava com seu sorriso azul, sabendo o que eu faria em seguida, deixando escorrer um pouco pela sua boca: “quer um gole de cachaça?”.
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